IMPRENSA

27.jun.2009

euemeuslivro

No fim da década passada, o mundo da literatura brasileira era bem chato. Os grandes autores continuavam grandes, e os novos… Bem, os novos nunca deixavam de ser novos. Seguindo o modelo do rock’n'roll, a renovação veio da marginalidade.

A principal efervescência veio do Rio Grande do Sul. Um fanzine distribuído pela internet começou a conquistar o público leitor e, consequentemente, “exportou” seus autores para o mainstream. Saíram do CardosOnline, o tal fanzine, Daniel Pellizzari, Daniel Galera e Clarah Averbuck.

Clarah, nascida em Porto Alegre em 26 de maio de 1979, também escrevia para revistas como Showbizz, Trip e TPM. Ela também teve um breve experiência no cinema, interpretando uma prostituta no curta”Nocturnu”, de Dennison Ramalho (mais tarde premiado em Gramado por outro trabalho, “Amor Só de Mãe”).

O mundo da literatura não estava preparado para Clarah Averbuck, mas ela venceu na insistência e no talento. Deixou Porto Alegre para trás e encarou São Paulo de frente. Nessa época o CardosOnline chegou ao fim depois de 3 anos e ela criou o extinto blog Brazileira!Preta, onde formou um exército de fiéis seguidores.

A dureza paulistana e a paixão pela literatura resultaram em “Máquina de Pinball”, lançado pela editora Conrad em 2002. O livro conta a história de Camila, um alter-ego da autora, que persegue o amor sem pausa para descanso. Ou melhor, com pequenas pausas apenas para o sexo casual. Ah, e ela também escreve. E sofre. E bebe. E usa drogas. “A auto-referência e a estética punk são as principais características, em um mundo repleto de figuras como notívagos, outsiders e afins (dos quais tais artistas fazem parte)”, observou o jornal “Folha de S. Paulo” na época do lançamento. A obra também ganhou destaque em outros jornais, como “O Estado de S. Paulo”, “Gazeta do Povo” e “Zero Hora”, além de inúmeras revistas e sites, da Set ao UOL. “Estar fodida é sair no jornal e não possuir reais para comprá-lo”, reclamava Clarah no blog.

O ator e diretor Antonio Abujamra tem uma opinião semelhante. “Difícil ver uma contemporaneidade mais poética em brasilidade”, escreveu no prefácio. “É um livro que os que sabem ver a coisas e os que não sabem ver as coisas lerão como alimento indispensável para devorar seus contentamentos.” E foi pela adaptação de Abujamra e Alan Castelo que Máquina chegou aos palcos cariocas. Na seqüência, Clarah recebeu uma proposta do diretor de cinema Murilo Salles para a adaptação de sua obra.

Logo depois do lançamento de Máquina de Pinball uma tríade de eventos mudou a vida de Clarah Averbuck completamente: ela descobriu a casa noturna roqueira Fun House. Junto com o lugar veio um dos sócios dele, Marcelo, que rapidamente se tornou namorado dela. Para coroar tudo isso, o casal teve a filha Catarina, em julho de 2003.

Também em 2003 a editora 7 Letras, percebendo o valor e potencial do Brazileira!Preta, lançou “Das Coisas Esquecidas Atrás da Estante”, uma reunião de textos do site (e outras coisinhas mais). Paralelamente, Clarah foi publicada pela primeira vez no exterior, em uma coletânea portuguesa de nome sutil: “Putas” e também integrou a coletânea “25 Mulheres que Estão Fazendo a Nova Literatura Brasileira”.

Enquanto esperava a publicação de “Vida de Gato” (Editora Planeta), uma espécie de continuação do primeiro livro, Clarah retomou uma paixão antiga e formou o grupo Jazzie & os Vendidos, uma banda de rock com um pé e meio no blues. Ela era a vocalista, Marcelo – seu ex-marido – tocava guitarra e Jonas tocava sax. Além das canções originais, eles costumavam mandar versões para clássicos (ou não) de Ray Davies, Faith No More, Os Mutantes, Rolling Stones e até alguma coisa da trilha de A Cor Púrpura. Apesar desse detalhe interessante, Jazzie não fazia um bando de covers curiosas. A banda era coração e instrumentos. Chegou ao fim em 2005. Mas Clarah está com novos projetos e pretende manter esta chama acesa com sua nova banda Oneyedcats, que está gravando seu primeiro disco. Afinal, sempre frisa que a música é tão importante quanto a literatura em sua vida e não apenas um hobby passageiro.

A adaptação cinematográfica de “Máquina de Pinball” já está pronta. O projeto – intitulado “Nome Próprio” – foi selecionado entre outros 800 pelo Instituto Telemar e recebeu R$ 1 milhão. O filme, lançado no final, de 2008e recebeu os prêmios de melhor filme, melhor atriz (para Leandra Leal) e melhor direção de arte (Pedro Paulo de Souza).

Clarah acaba de lançar “Nossa Senhora da Pequena Morte”, uma obra bem peculiar, assinada, numerada e limitada que vem dentro de um vinil garimpado com textos e ilustrações integradas . As folhas vêm soltas. Os vinis foram garimpados em sebos paulistanos e o livro foi todo feito parceria com Eva Uviedo. Ela também se encheu dos blog e matou seu Adiós Lounge e foi terminar seu novo romance, “Eu Quero Ser Eu”, comtemplado pelo Programa Petrobrás Cultural, a ser lançado pela Editora Cosac Naify. Mas logo fraquejou e voltou com O mundo, o universo e tudo mais, abrigado pelo Portal Vírgula. Também teve seu livro Vida de Gato traduzido e lançado pela editora inglesa Future Fiction. (www.futurefiction.co.uk)

Paulo Terrón

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